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Entrevista com Rodrigo Lopes Sauaia, diretor executivo da ABSOLAR
02/02/2015 às 08:00 - Por: Leonardo Oliveira e Juliana de Moraes
 
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Fundada no final de novembro de 2013 com o objetivo de defender de forma institucional e exclusiva os interesses do setor produtivo de energia solar fotovoltaica, a ABSOLAR (Associação Brasileira de Energia Solar Fotovoltaica) conta com 67 associados das mais variadas partes da cadeia produtiva.
 
Nesta entrevista exclusiva ao portal do SindiEnergia, Rodrigo Lopes Sauaia, diretor executivo e co-fundador da entidade, discorre sobre os focos de atuação da Associação, opina quanto à expectativa de crescimento da energia solar fotovoltaica na matriz energética brasileira, além de citar os entraves enfrentados para a consolidação da fonte.
 
Sauaia ainda fala sobre algumas práticas internacionais que podem ser adaptadas e incorporadas à realidade brasileira e comenta sobre o resultado do Leilão de Energia de Reserva de fontes alternativas, realizado em outubro do ano passado. “Foi um marco histórico para o setor fotovoltaico brasileiro”.
 
A seguir, confira a entrevista completa:
 
SindiEnergia Comunica – Como se deu sua trajetória, até o momento, no segmento de energia?
 
Rodrigo Sauaia - Meu envolvimento com a área de energia começou na graduação em Química, na Universidade de São Paulo, realizando pesquisas em fotoquímica inorgânica e conversão de energia com células solares fotoeletroquímicas. Depois, me aprofundei na área com um mestrado em Energias Renováveis com especialização em Energia Solar Fotovoltaica. Fiz parte do mestrado na Loughborough University e na Northumbria University, no Reino Unido. A outra parte fiz no Swiss Federal Institute of Technology (ETH Zürich), na Suíça, sempre realizando pesquisas na área de energia solar fotovoltaica.
 
Apesar das propostas para permanecer na Europa, decidi retornar ao Brasil para manter um maior vínculo com o país. Realizei um doutorado em Engenharia e Tecnologia de Materiais na PUC-RS, focado em energia solar fotovoltaica e em técnicas avançadas de fabricação de células de silício cristalino. Desenvolvi parte da minha pesquisa na Alemanha, em colaboração internacional com o Fraunhofer Institut für Solare Energiesysteme (Fraunhofer ISE), referência mundial em energia solar fotovoltaica, mas já planejando voltar ao país para auxiliar no desenvolvimento do setor e do mercado brasileiro.
 
Durante e após a conclusão do doutorado, fiquei cada vez mais envolvido com ações estratégicas de desenvolvimento e representação do setor de energia solar fotovoltaica.
 
Participei ativamente do processo de estruturação das Resoluções Normativas 481/2012 e 482/2012 da Aneel (Agência Nacional de Energia Elétrica), consideradas marcos para o incentivo à fonte solar fotovoltaica no país. Dei suporte técnico e estratégico junto a associações como a Abinee (Associação Brasileira da Indústria Elétrica e Eletrônica) e ONGs como Greenpeace.
 
Em meio a estas atividades, fui convidado por um grupo de empresas do setor fotovoltaico para participar do processo de fundação e estruturação da ABSOLAR. Aceitei o desafio e assim começou a minha trajetória na entidade.
 
 
SindiEnergia Comunica – Qual foi a motivação principal para a fundação da ABSOLAR?
 
Rodrigo Sauaia - A ABSOLAR foi planejada ao longo do segundo semestre de 2013 e fundada no final de novembro do mesmo ano. A associação foi fruto de um amplo debate entre empresas atuantes no setor de energia solar fotovoltaica que identificaram não haver, até então, uma entidade representativa que defendesse de forma institucional e exclusiva os interesses do setor no país.
 
Atualmente, contamos com 67 associados, entre eles: fabricantes de matéria prima, empresas que fabricam componentes e equipamentos, que instalam equipamentos, geradoras de energia, comercializadoras de energia, consultorias, entre outras.
 
 
SindiEnergia Comunica - Quais são as principais frentes de trabalho da Associação?
 
Rodrigo Sauaia - O papel da ABSOLAR é representar institucionalmente a energia solar fotovoltaica no país. Levamos os pleitos do setor para o governo, tomadores de decisão, agências regulatórias, entre outros agentes. Também ajudamos e apoiamos parlamentares a estruturar projetos de lei, além de termos um bom relacionamento com Organizações Não Governamentais e ambientalistas interessados em promover a energia solar fotovoltaica no Brasil.
 
A mídia também é um parceiro importante, que nos auxilia na divulgação da tecnologia e na conscientização da população brasileira sobre as características e benefícios da energia solar fotovoltaica.
 
Além disso, organizamos eventos do setor. Em 2014, foram seis eventos próprios, os chamados Encontros ABSOLAR, além de um evento no qual atuamos como apoiador oficial. Também marcamos presença em feiras e conferências nacionais e internacionais voltadas para energia solar, energias renováveis e temas relacionados.
 
 
SindiEnergia Comunica - Considerado o mais disputado da história, o Leilão de Energia de Reserva (LER) 2014 durou oito horas e teve 104 rodadas. O antigo recorde, de 2008, teve 72 rodadas. Quais foram os motivos para o sucesso do certame?
 
Rodrigo Sauaia – Só poderemos afirmar, de fato, que o certame foi realmente um sucesso quando os projetos vencedores estiverem construídos e operando, ou seja, a partir do segundo semestre de 2017.
 
Por enquanto, posso dizer que o leilão de energia de reserva foi, sem dúvidas, um marco histórico para o setor fotovoltaico brasileiro, pois foi o primeiro leilão de âmbito nacional que contratou energia solar fotovoltaica em projetos de grande porte.
 
Antes disso, tivemos o leilão de Pernambuco, que havia contratado cerca de 122 megawatts de projetos. Este último leilão contratou 1.048 MW (ou seja, 1 GW). Em termos de potência injetada na rede, foram 889 MW. São números bastante expressivos para a fonte.
 
Colocando estes números em perspectiva, o LER 2014 contratou, sozinho, mais ou menos 20 vezes tudo que já havia sido instalado em energia solar fotovoltaica no Brasil. Atribuo parte da expressividade deste número ao fato de ainda termos um volume muito pequeno de energia solar fotovoltaica na matriz elétrica brasileira.
 
Isso também indica que há uma grande margem para o crescimento da fonte no país. Além disso, a maioria dos projetos em funcionamento no país opera, atualmente, desconectada da rede, situação que deve mudar nos próximos dois ou três anos.
 
 
SindiEnergia Comunica - Qual é a expectativa para o crescimento da participação da energia solar fotovoltaica na matriz energética brasileira?
 
Rodrigo Sauaia – Sobre a geração centralizada, que abarca projetos de grande porte, a ABSOLAR tem pleiteado uma contratação de pelo menos 1 GW por ano em projetos de energia solar fotovoltaica, principalmente através de leilões. Em 2014, foram 1048 MW contratados (889 MW injetados).
 
Para este ano, esperamos leilões com participação específica de energia solar fotovoltaica, resultando numa contratação de pelo menos 1 GW. Fazendo uma rápida conta para o médio prazo, a expectativa da ABSOLAR é de termos operando na matriz elétrica brasileira mais de 5 GW em 2023.
 
Em relação à geração distribuída, 2015 será bastante promissor, especialmente devido às expectativas de elevação das tarifas de energia elétrica do país.
 
A projeção de especialistas do setor elétrico é de que teremos um novo aumento anual médio entre 20% e 40%. A geração distribuída estabelece sua competitividade comparando o preço da energia gerada localmente com o preço da energia que o consumidor final paga.
 
Desse modo, com um aumento anual médio tão acentuado, a previsão para o ano é de que gerar energia localmente será cada vez mais atraente aos consumidores finais.
 
Portanto, no panorama decenal nossa expectativa é de um crescimento muito positivo para a energia solar fotovoltaica, tanto na área de geração distribuída quanto na de geração centralizada.
 
 
SindiEnergia Comunica – Sendo assim, o mercado espera por crescimento nos negócios?
 
Rodrigo Sauaia - Para a geração distribuída, o cenário é positivo. Por poder ser instalada em praticamente qualquer edifício do país, a energia solar fotovoltaica é muito democrática. Qualquer cidadão brasileiro interessado poderá se tornar um micro ou minigerador de energia elétrica na sua residência, comércio ou indústria.
 
Para falarmos em números, cito um estudo da EPE (Empresa de Pesquisa Energética) que teve como foco o potencial de crescimento da energia solar fotovoltaica distribuída no Brasil. De acordo com o relatório, se houvesse energia solar fotovoltaica em todas as residências do país, seria possível gerar 2,3 vezes a nossa demanda residencial de energia elétrica de 2013.
 
Esperamos criar no Brasil, com o envolvimento do governo, a parceria da mídia e um aumento da conscientização da população sobre a questão, uma cultura de “solarizar” as construções.
 
Esse novo verbo, “solarizar”, representa justamente este movimento de trazer ao país cada vez mais energia solar fotovoltaica, através dos telhados de residências, comércios, indústrias, escolas, universidades, hospitais e demais edificações públicas e privadas.
 
Se o governo incentivar mais fortemente a tecnologia para a geração distribuída por sistemas fotovoltaicos, a expectativa é de chegar em 118 GW instalados até 2050.
 
 
SindiEnergia Comunica - Qual o principal entrave para o crescimento da participação da energia solar fotovoltaica na matriz energética brasileira?
 
Rodrigo Sauaia - Na área de geração distribuída são dois os principais entraves. O primeiro deles é a tributação, que tem freado o crescimento da tecnologia e da geração distribuída em geral.
 
O Confaz (Conselho Nacional de Política Fazendária) definiu que quando é realizada a compensação da energia injetada na rede, ainda há a obrigatoriedade do pagamento dos impostos (entre 30% e 40%) sobre a energia que foi compensada. Ou seja, por causa da decisão do Confaz, a energia elétrica perde valor quando é injetada na rede.
 
A ABSOLAR está trabalhando para corrigir essa situação. A discussão está relativamente avançada e temos a expectativa de que esse tema seja votado ao longo de 2015.
 
O segundo obstáculo que a geração distribuída enfrenta é o financiamento. Apesar do interesse da população brasileira, nem todos tem disponibilidade de recursos para investir no sistema fotovoltaico. Temos atuado junto a bancos públicos e privados para encontrar alternativas e soluções para esta questão.
 
 
SindiEnergia Comunica – Para os investidores, o ambiente parece ser favorável dado o crescente número de participantes em leilões. Mas, há, na avaliação dos agentes, riscos adiante? 
 
Rodrigo Sauaia – Sim. Na geração centralizada, o primeiro ponto é o risco dos empreendedores de investir no Brasil, pois há incerteza sobre quanto o governo vai investir e apoiar o desenvolvimento da tecnologia
 
Outro ponto é o desenvolvimento de uma cadeia produtiva nacional. Um dos caminhos sugeridos pela ABSOLAR para aprimorar o cenário nacional para a cadeia produtiva, é a analise, pelos tomadores de decisão do nosso país, dos erros e acertos dos países asiáticos, que respondem por 80% da fabricação dos equipamentos fotovoltaicos.
 
 
SindiEnergia Comunica - Quais são as principais práticas internacionais que podem ser adaptadas à realidade brasileira?
 
Rodrigo Sauaia - A Alemanha é um mercado de referência com mais de 40 GW de energia solar fotovoltaica instalada. O país usou um modelo oneroso de incentivo. Havia o pagamento de uma tarifa diferenciada (tarifa-prêmio) para quem gerasse energia renovável.
 
O Brasil adotou essa mesma metodologia aos projetos do Proinfa (Programa de Incentivo às Fontes Alternativas de Energia Elétrica), porém a energia solar fotovoltaica não foi incluída neste programa.
 
Outro mecanismo de disseminação muito eficiente é o estabelecimento de um benefício tributário, a exemplo do programa ITC (Investment Tax Credit) dos Estados Unidos. O programa permite um abatimento no Imposto Renda de pessoas físicas e pessoas jurídicas proporcional ao investimento realizado na aquisição de um sistema fotovoltaico.
 
O ITC foi fundamental para o rápido crescimento do mercado fotovoltaico nos Estados Unidos, tendo contribuído significativamente para a criação de empregos de qualidade, movimentação da economia e aumento da arrecadação indireta do governo.
 
 
SindiEnergia Comunica – A ABSOLAR está ajudando na construção de políticas públicas voltadas ao incentivo da adoção da energia solar?
 
Rodrigo Sauaia - Com base em experiências internacionais bem sucedidas, como as descritas acima, a ABSOLAR auxiliou na estruturação de um Projeto de Lei para o município de São Paulo, que beneficiará, com uma redução do IPTU (Imposto Predial e Territorial Urbano) de proprietários de imóveis que investirem em energia solar fotovoltaica.
 
Trata-se de um abatimento proporcional ao valor investido no sistema, dando transparência e maior eficiência ao incentivo. Utilizamos como referência a legislação da cidade de Nova Iorque, adaptando-a ao cenário brasileiro.
 
 
SindiEnergia Comunica - Quais são os principais compromissos da ABSOLAR para este ano de 2015?
 
Rodrigo Sauaia - Teremos uma lista bastante extensa de atividades. Além da continuidade de iniciativas já mencionadas, intensificaremos as discussões com diferentes tomadores de decisão do país e parceiros das esferas pública e privada para estruturar de um programa de massificação do uso da energia solar fotovoltaica no Brasil, a exemplo dos programas desenvolvidos em países como Alemanha, Japão, EUA, Austrália e China.
 
Na geração centralizada, continuaremos nossa atuação junto aos agentes do setor elétrico brasileiro, em especial MME (Ministério de Minas e Energia), EPE, Aneel, BNDES e as demais associações do setor.
 
Por fim, gostaria de ressaltar que a ABSOLAR está aberta para receber novos associados, tanto empresas interessadas em atuar no setor fotovoltaico, quando profissionais atuantes no setor.
 
 
Produção e edição:
Moraes Mahlmeister Comunicação
 
Compartilhe: link: http://www.sindienergia.org.br/noticia.asp?cod_not=2293
 

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